Aos 78 minutos do duelo das oitavas de final contra o Egito, em Atlanta, parecia que a Copa do Mundo de Lionel Messi havia chegado ao fim. A Argentina estava perdendo por 2 a 0, o tempo escorria e o silêncio em torno do astro de 39 anos era ensurdecedor. O que se seguiu foi uma das remontadas mais improváveis da história do torneio: três gols em 13 minutos, com participação direta de Messi, e uma vitória por 3 a 2 que manteve viva a defesa do título mundial. Nas quartas de final, em Kansas City, o adversário será a Suíça - uma seleção que eliminou a Colômbia nos pênaltis depois de um empate sem gols nas oitavas.
Messi dominou a campanha argentina desde o apito inicial. O oito vezes vencedor da Bola de Ouro marcou os cinco primeiros gols da seleção no torneio, nas vitórias sobre Argélia (3 a 0) e Áustria (2 a 0), antes de entrar como reserva na rodada final do Grupo J e fechar o placar contra a Jordânia, garantindo a classificação em primeiro. No mata-mata, contra Cabo Verde nas oitavas de 32, a Argentina cedeu a vantagem duas vezes antes de virar para 3 a 2 na prorrogação - um clássico instantâneo. O confronto com o Egito foi ainda mais tenso, mas Enzo Fernández completou a virada e fez companhia a Messi e ao técnico Lionel Scaloni em uma das cenas mais emotivas desta Copa: os dois Lionels chorando juntos ao apito final. Vale lembrar que o esporte de alto rendimento não poupa ninguém das pressões e reviravoltas - algo que qualquer torcedor que acompanha tudo sobre a queda de Chandler no ranking do UFC sabe muito bem: carreiras construídas por anos podem mudar de figura em questão de minutos.
Argentina: genialidade e fragilidade em doses iguais
Há um padrão preocupante na campanha da Argentina. Scaloni, que em 2022 transformou o torneio com substituições certeiras - Fernández, Alexis Mac Allister e Julián Álvarez saíram da reserva para protagonizar o título - não conseguiu repetir essa capacidade de reinvenção nesta edição. A equipe parece estagnada taticamente, e quando Messi não está em modo providencial, o conjunto luce lento e previsível.
Dados da FIFA mostram que a Argentina circula 34% da posse pelo corredor central - a maior proporção entre todas as seleções do torneio -, com grande parte do jogo ofensivo orientado a encontrar Messi nas entrelinhas. O Egito bloqueou esse canal com eficiência durante quase todo o jogo, e a Suíça, que cedeu apenas três chutes a gol em 120 minutos contra a Colômbia, é defensivamente superior. Lautaro Martínez, cujo passe para o gol de Fernández pode colocá-lo na titularidade no lugar de um Álvarez muito abaixo do esperado, precisará ter um papel mais ativo. A Argentina foi vulnerável no contra-ataque - o Egito construiu seus gols explorando exatamente essa fragilidade - e a Suíça tem corredores rápidos em Dan Ndoye, Breel Embolo e Ruben Vargas para explorar espaços.
E ainda assim: este grupo argentino nunca se considera vencido. Retiveram a Copa América em 2024, convivem juntos há anos e têm uma crença coletiva que beira o irracional. Se em algum momento os suíços acreditarem que têm a Argentina onde querem, é exatamente aí que precisam estar mais alertas.
Suíça: disciplina, Xhaka e a aposta no desgaste
A Suíça chegou às quartas sem fazer barulho, mas com solidez inegável. Empatou com o Qatar na abertura, depois venceu Bósnia e Herzegovina por 4 a 1 e o co-anfitrião Canadá por 2 a 1 para avançar em primeiro no Grupo B. Nas oitavas de 32, bateu a Argélia por 2 a 0 com tranquilidade. Nas oitavas de final, segurou a Colômbia no 0 a 0 e venceu nos pênaltis por 4 a 3 - mesmo com Manuel Akanji mandando sua cobrança às nuvens. Ao longo de todo o torneio, concedeu apenas três gols.
O motor desta equipe é Granit Xhaka. O capitão, hoje no Sunderland, aos 33 anos ainda cobre a sexta maior distância acumulada no torneio segundo a FIFA. Ele não é apenas um organizador de jogo - é a voz que posiciona cada companheiro dentro da estrutura compacta de Murat Yakin, que comanda a seleção há cinco anos. Johan Manzambi, o atacante de beirada que poderia trazer criatividade extra, está fora por lesão, e sua ausência pesa. A Suíça é o time mais perigoso em termos defensivos entre os oito classificados, mas é também o com menor capacidade ofensiva. Para avançar, provavelmente precisará de 90 minutos sólidos, prorrogação disciplinada e pontaria nas cobranças de pênalti - exatamente o script da vitória sobre a Colômbia.
O precedente de 2014 e o que dizem os nossos analistas
O último encontro entre as duas seleções no mata-mata foi uma vitória argentina por 1 a 0 nas oitavas do Mundial de 2014 no Brasil - partida que contou com Messi e Xhaka como protagonistas dos respectivos lados. A Suíça frustrou a Argentina durante quase toda a prorrogação, só cedendo aos 118 minutos, com um passe milimétrico de Messi para Ángel Di María. Os suíços tiveram as melhores oportunidades - Xhaka desperdiçou uma chance dentro da área, e Blerim Džemaili acertou o poste no último lance. O jogo foi definido, como tantos outros neste torneio, por um lampejo do gênio argentino.
As previsões da nossa redação divergem, mas convergem em um ponto: será um duelo tenso. Conor O'Neill aposta em Argentina 1 a 0, argumentando que sem Manzambi a Suíça não tem poder ofensivo suficiente. Phil Hay projeta Argentina 2 a 0, acreditando que os suíços serão forçados a abrir o jogo e Messi os punirá. James Horncastle antevê pênaltis, com placar de 2 a 2 e vitória argentina, ressaltando que Remo Freuler e Xhaka formam um meio-campo "feroz" e que Emiliano Martínez pode precisar repetir os seus feitos do Qatar. Anantaajith Raghuraman vai de 2 a 1 para a Argentina na prorrogação, enquanto Max Mathews - a voz mais cética do grupo - prevê 3 a 2 para a Suíça, apontando a vulnerabilidade defensiva argentina e a dependência excessiva de um jogador de 39 anos.
O 100º jogo deste verão mundial coloca frente a frente a imprevisibilidade dramática da Argentina e a eficiência calculada da Suíça. A história sugere que Messi encontra um caminho. A forma recente da Argentina sugere que esse caminho será íngreme. Sábado em Kansas City dirá quem está certo.